segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A causa secreta

Por: Rute Rita

Fala de dois homens que,após um salvar a vida do outro e passa-se algum tempo,tornam-se sócios mas pouco a pouco um deles vai demonstrando tendências sádicas torturando animais,fato que atordoada a esposa .Quando ela morre,Fortunato o sádico,presencia o amigo beija a testa da mulher e derreter-se em choro,ele era apaixonado por ela, na  morte dela é revelado sua paixão a Fortunato que presencia o momento de dor do amigo que lhe traía.
O motivo do conto é explica o verdadeiro sentido termo “sadismo”.Um conto naturalista .Ainda que a ambientação seja burguesa os personagens parecem ratos de laboratórios .Uma analogia bastante explorada pelo autor na cena mais forte do texto em que o personagem tortura o rato.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A Cartomante

Por: Michelle Nery Rente

Há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. É com esses dizeres de Hamlet à Horácio que Rita repetia a Camilo em uma sexta-feira de novembro de 1869, quando o mesmo ria dela por ter ido se consultar com uma cartomante.
Rita foi consultar-se com esta que ficava na Rua da Guarda Velha, próximo a casa onde ocorriam os encontros dos amantes na Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita.
 A história começa quando os amigos Vilela e Camilo se reencontram depois de muito tempo sem se verem. Os dois eram amigos de infância, Vilela seguiu  carreira de magistrado e Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico. Depois da morte do pai, sua mãe lhe arranjou um emprego público. No começo de 1869, Vilela voltou da Província, onde se casara com uma formosa e tonta dama. Camilo arranjou-lhe casa para o lado de Botafogo.
A convivência entre os três trouxe intimidade. Porém com a morte da mãe de Camilo a amizade entre eles ficou ainda maior. Tanto que foi a partir daí que Rita acabou se tornando mais próxima de Camilo. Eles costumavam ler os mesmos livros, jogavam xadrez e saiam juntos, quando de repente o amor surgiu. Ele tentou fugir, mas já era tarde, Rita o conquistou.
Porém um certo dia,Camilo recebeu uma carta anônima, que lhe chamava de pérfido e imoral, na carta dizia que a aventura de ambos já eram sabida por todos. Ele teve medo decidindo  assim permanecer por um tempo longe da casa de Vilela
O amigo porém estranhou a ausência, e Camilo inventou ao amigo que o real motivo dela seria uma nova paixão do rapaz.
Rita também sentiu com a ausência do rapaz, fazendo assim a procurar uma cartomante para descobrir o motivo do desaparecimento do amante.
Com o tempo, os dois voltaram a se encontrar, combinando um modo de se corresponderem em casos de necessidade.
No dia seguinte, Camilo recebeu um bilhete de Vilela com os seguintes dizeres: ”Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora.” Camilo que por instantes já desconfiava que seu romance com a mulher do amigo fosse descoberto.
AS palavras de Vilela não saiam da cabeça de Camilo, que a todo instante reelia o bilhete. Camilo tinha medo, imaginou todas as situações possíveis como se Vilela já soubesse de tudo. Pensou até na possibilidade de Rita ter lhe mandado um recado em sua casa. Porém não encontrou nada nem ninguém. Começou a ligar os fatos, desde a carta anônima, até o recebimento do bilhete do amigo.
Se dirigiu então até o Largo da Carioca para pegar um tílburi em direção à casa do amigo. Chegando quase ao fim da rua da Guarda Velha, coincidentemente avistou a casa da cartomante em que Rita se consuntava. Viu porém toda a casa fechada, na mesma hora então que o tílburi teve de parar pois um carroça estava atravacada no meio da rua.
No fim, depois de tanto pensar, contrariando todas as suas opiniões, Camilo então resolve ir na direção da casa. Disse ao cocheiro que esperasse e subiu as escadas na direção da porta. Bateu, e logo em seguida veio uma mulher, Camilo disse-lhe que gostaria de se consultar e ela o fez entrar. Subiram para um sotão por uma escada mais escura que a primeira. Paredes sombria, velhos trastes, e uma pobreza destruíam o prestígio do ambiente.
A cartomante o fez sentar-se diante de uma mesa, abriu uma gaveta e tirou um baralho. Enquanto a mulher as embaralhava, olhava para Camilo. A mulher provavelmente aparentava ter por volta dos quarenta anos, italiana, morena e magra. Postou três cartas à mesa e disse-lhe:
-Vejamos primeiro, o que é que o tráz aqui...o senhor tem um grande susto...
Camilo fez-lhe um gesto afirmativo.
E continuou:
-E quer saber se lhe acontecerá alguma coisa ou não...
-A mim e a ela, explicou Camilo.
A cartomante disse-lhe que esperasse, pegou novamente as cartas e as embaralhou e estendeu-as.
-As cartas dizem-me...
Então ela o declarou que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria a nenhum dos dois. Ele, o terceiro ignorava tudo. Falou-lhe também do amor que os ligavam, da beleza de Rita...
Camilo ficou deslumbrado. Ela então recolheu as cartas e fechou a gaveta.
-A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.
Esta que então levantou-se rindo.
-Vá, disse ela; Vá ragazzo innamorato...
Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagá-la, ignorava o preço. Pagou dez mil-réis pela consulta. A cartomante pegou o dinheiro e o guardou na algibeira. Ele então desceu as escadas, encontrou o tílburi o esperando e seguiu em direção à casa de Vilela.
Para ele, tudo estava melhor agora e até chegou a rir de seus receios. Constatou então o pedido do amigo ser urgente e não poderia demorar.
-Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.
No caminho, formulou até um plano para dar a desculpa ao amigo pela demora. O coração, ia contente pensando no que a cartomante previu e as futuras alegrias.
Daí, chegou a casa de Vilela, empurrou a porta de ferro do jardim, subiu as escadas, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.
-Desculpa, não pude vir mais cedo; o que há?
Vilela, portanto não lhe respondeu; fez-lhe um sinal e entram para uma saleta interior. Camilo tomou um susto ao ver Rita morta e ensanguentada. Mal teve tempo de fazer algo, Vilela o pegou-o pela gola, e deu-lhe dois tiros e então estirou-se morto no chão.


Podemos ver nessas duas obras de Machado de Assis, temas, que apesar de terem sido escritos em épocas muito distantes da nossa, podemos concluir que uma das principais características do Realismo,é fazem críticas distintas com temas sociais de diferentes classes.

Entre Santos

Por: Michelle Nery Rente

Contava um velho padre, uma história extraordinária que aconteceu quando ele era capelão de São Francisco de Paula.
Uma vez, tarde da noite antes de se recolher, como de costume foi verificar se todas as portas da igreja estavam trancadas, quando por baixo das portas avistou uma luz muito intensa e fixa, fazendo assim o padre pensar de se tratar de um possível roubo. Assustado, ele resolveu buscar as chaves e entrou na igreja pela sacristia.
Ao adentrar no recinto com uma lanterna, caminhou silenciosamente pelo corredor escuro seguindo a claridade que se encontrava no interior da igreja. Em certo ponto, o padre passou a escutar vozes que não se pareciam nada com cochichos, mas sim, com uma conversa tranqüila.
Nessa hora o padre recuou um pouco, achando que se tratava de uma conversa entre defuntos, já que naquela época se enterravam-se eles dentro das igrejas. Passado o susto, pensando que a idéia seria um disparate, o padre busca assim descobrir o que de fato estava acontecendo de errado dentro da igreja.
Neste momento, uma coisa extraordinária aconteceu, ele avistou São José e São Miguel sentados em seus altares conversando. Falavam diretamente virados para os altares de São João Batista e São Francisco de Sales. Perplexo, ele mau podia sair do lugar de tão impressionado que o capelão ficou. Por um momento, o mesmo pensou estar beirando à loucura!
Vendo assim que nem sequer os santos o tinham notado sua presença, o padre se dirigiu aos bancos, em um lugar distante onde não notariam sua presença e ao mesmo tempo poderia presenciar suas conversas. Aos poucos, foi adquirindo a percepção e pode ouvir claramente sobre o que conversavam. Ao mesmo tempo, percebeu que a luz que seguiu, no entanto, não vinha de nenhum outro lugar que não fosse dos próprios santos.
Passou então a não tentar pensar em mais nada, apenas ouvir e contemplar a conversação que ele então presenciava.
Naquele instante, os santos falavam sobre as orações e implorações daquele dia, sendo que cada um falava seu relato. São Francisco de Paulo passou a fazer parte da conversa também.
Entre casos, falavam sobre a fé sincera de alguns fiéis e a dissimulação de outros, como o caso de uma adúltera que ao brigar com o namorado, implorou que limpassem seu coração da luxúria, porém suas palavras passavam a ficar sem vida durante a prece, fria e mesmo rezando, sua cabeça pensava no outro. Levantou-se e saiu sem pedir nada.
O foco da conversa passou a ser então no caso de um homem por volta de cinqüenta anos chamado Sales (igual ao santo), que sua mulher que ele amava tanto estava de cama muito doente de uma erisipela em uma das pernas. Vivia há cinco dias aflito porque ela não se curava e suas chances de vida eram poucas.
Como o homem era muito ganancioso, as pessoas não acreditavam que ele amava a mulher mais do que o dinheiro. Elas comentavam que o homem apenas sofria pelos futuros gastos com as despesas funerárias.
O homem não possuía filhos, trabalhou a vida inteira e guardava em casa a sete chaves suas tão cobiçadas economias. Costumava contempla-las por alguns minutos e o guardava de novo. Depois do ocorrido com sua esposa, passou a dormir mal, sua família era apenas ela e uma escrava preta, comprada junto com outra às escondidas por serem de contrabando. Quando uma morreu, Sales enterrou a escrava como miserável, para não pagar as despesas com a sepultura.
Porém, uma coisa os santos não negavam, o amor verdadeiro por sua companheira por mais de vinte anos. Foi aí então que Sales resolveu voltar-se para Deus, com medo de perder seu amor.
O padre vendo que o busto de São Francisco de Sales se inclinar para contar detalhadamente a história, ele então deu um passou para ouvir a narração.
Segundo o santo, o homem então prometeu à São Francisco de Sales, que se sua mulher curar-se ele lhe mandaria fazer uma perna de cera. O próprio resolveu forçar assim a graça divina pela expectação do lucro.
O santo então percebeu a falta de fá em sua alma, que segundo ele faria que a intercessão fosse feita. Acabada a oração, o santo pode perceber que os pensamentos de Sales eram sobre a morte da esposa. Ele tentou contorcer para não deixar que sua boca pronunciasse seus pensamentos, e tornou a rogar para que o santo intercedesse por ele. Pensava na promessa das pernas de cera prometida ao santo, porém o dinheiro não tornava a sair de sua mente, virando assim em alucinações.
As alucinações fizeram com que ele passasse a prometer trezentos padre-nossos e trezentas ave-marias. Repetia em voz alta: trezentos, trezentas, trezentos...
Foi subindo para mil,mil,mil...assim repetia o homem na igreja.
-Vamos lá, podeis rir à vontade. Dizia São Francisco de Sales aos outros santos que riam de sua história.
Depois daí, o padre não pode ouvir mais nada, caiu redondamente no chão, e quando se deu conta o dia já estava claro. Correu para abrir a igreja e a sacristia e deixar o sol, inimigo dos maus sonhos entrarem.

O Segredo do Bonzo

Por: Janaina Silva – RA:151163

Capítulo inédito de Fernão Mendes Pinto
Narrado em primeira pessoa, O Segredo do Bonzo surge de um fato absurdo, mas que possui um profundo sentido: a virtude e o saber tem duas existências paralelas: uma no sujeito possuidor; outra, no espírito de quem ouve ou contempla, pois “não há espetáculo sem espectador”. A moral do conto é: “a essência é a aparência”. Persuadir o próximo.
Fernão Mendes Pinto (1510-1583) viajante e escritor português de vida bastante acidentada. No livro póstumo, Peregrinações, deixou registradas as aventuras e as observações das viagens que fez pelo Extremo Oriente. Suas narrativas foram consideradas, durante muito tempo, puras invencionices, inspirando o trocadilho: Fernão, mentes? - Minto.
Segundo o narrador, "uma coisa pode existir na opinião sem existir na realidade" e vice-versa. Por isso, "não nos cabe inculcar aos outros uma opinião que não temos, e sim a opinião de uma qualidade que não possuímos". O conto analisa a capacidade que alguns homens têm de persuadir o próximo.
Com O Segredo do Bonzo (publicado em Papéis Avulsos, de 1882), Machado de Assis retoma uma disputa teológica narrada por Mendes Pinto: no exótico Japão, um padre português é invejado por sacerdotes budistas devido aos favores que o rei lhe dispensava. Percebendo as discretas indicações de Mendes Pinto, que, propositadamente, omite a resposta do padre aos Bonzos, o escritor brasileiro escapa ao óbvio, pois percebe que toda a disputa, aparentemente religiosa, na verdade consistia numa luta pelo prestígio social e favores reais, transformando, assim, os Bonzos em charlatões que enriquecem às custas da crendice do povo e desmascarando a predominância da opinião sobre a realidade das coisas.
O narrador do conto O segredo do Bonzo fala do que viu na cidade de Funchéu, onde andava com um amigo, Diogo Meireles. Em um ajuntamento de pessoas, alguém que se dizia matemático, físico e filósofo, afirmava ter descoberto a origem dos grilos: eles surgem da agitação do ar e das folhas de coqueiros. Em outra multidão, um homem dizia ter descoberto o princípio da vida futura, que estava em “uma certa gota de vaca”. O narrador então fica sabendo que nos dois casos estava sendo aplicada uma doutrina criada por um homem de muito saber, um bonzo de nome Pomada.
Os dois personagens fazem uma visita ao sábio Pomada, que assim resume sua doutrina: “A virtude e o saber tem duas existências paralelas: uma, no sujeito que as possui, outra no espírito dos que o ouvem ou contemplam.” Assim, segue o sábio, uma coisa pode existir na opinião sem existir na realidade. De outro lado, uma coisa pode existir na realidade sem existir na opinião. Disso ele conclui que “das duas realidades paralelas, a única necessária é a da opinião”. Eis aí a essência do pomadismo. O bonzo pomadista, como se vê, monta sua doutrina a partir de uma afirmação trivialmente verdadeira: uma coisa pode existir na opinião sem existir na realidade, e existir na realidade sem existir na opinião. A seguir o bonzo conclui: a única existência necessária é a da opinião. Isso, diz ele, é um “achado especulativo”. O jogo do bonzo, diz o narrador, consiste em “meter idéias e convicções nos outros”. Um de seus seguidores, Titané, o alparqueiro, usa o jornal para propagandear suas alparcas comuns, fazendo crer que elas são maravilhosas. O narrador do conto, por sua vez, ao praticar a doutrina, faz de conta que toca a charamela (um antepassado da clarineta) para uma audiência que se maravilha ouvindo ... nada! Diogo Meireles, por sua vez, encontra pessoas portadoras de uma doença que torna os narizes horrendos, e convence-as a deixarem que ele arranque os narizes. Eles serão substituídos por um “nariz são, mas de pura natureza metafísica, isto é, inacessível aos sentidos humanos”. Os viventes, desnarigados, ficam muito felizes com o novo nariz inexistente.
Na cidade de Fuchéu, capital do reino de Bungo, com o padre-mestre Francisco e outros, que acertaram disputar as primazias da santa religião.
Um dia, andando a passeio com Diogo Meireles, no ano de 1552, sucedeu depararmos com um juntamento de povo, em torno um homem da terra Patimau, que queria confirmar a origem dos grilos, os quais procediam do ar e das folhas de coqueiro.
Continuaram andando e viram outra multidão que o orador dizia ter descoberto o princípio da vida futura, quando a terra houvesse de ser inteiramente destruída, e era nada menos que uma gota de sangue de vaca; daí provinha a excelência da vaca para habilitação das almas humanas; e este homem chama-se Languru.
Sucedeu porém, costearmos a casa de um certo Titamé,, alparqueiro, o qual ocorreu a falar a Diogo Meireles, de quem era amigo.
No dia seguinte, foram à casa do bonzo chamado Pomada, um ancião de cento e oito anos, muito lido e sabido nas letras divinas e humanas, de quem os outros bonzos tinha ciúmes; ele disse: -a virtude e o saber têm duas existências paralelas, uma no sujeito que as possui e outro no espírito dos que o ouvem ou contemplam. Se puserdes as mais sublimes virtudes e os mais profundos conhecimentos em um sujeito solitário, remoto de todo contato com outros homens, é como se eles não existissem, ou seja, não há espetáculo sem espectador. – Mal, pois, advinha o que me deu idéia da nova doutrina; foi nada menos que a pedra da lua, colocada no cabeço de uma montanha, dá claridade a uma campina inteira; tal pedra que ninguém nunca viu e que nunca existiu, mas que muitos que crê e dirá que viu com seus próprios olhos.
A conclusão é que das duas existências paralelas à única necessária é a da opinião, não a da realidade, que é apenas conveniente.
Nota: Bonzo = monge, servidor de um templo, estudioso de teologia e outras ciências humanas. No oriente antigo (século V a XV), a tradução da palavra Bonzo se refere ao homem religioso, sacerdote ou não, que por sua cultura geral, serve de conselheiro, psicólogo, curandeiro de males físicos e espirituais, além de mediador de discussões e desentendimentos em sua comunidade.

Papéis avulsos

Por: Janaina Silva – RA:151163

Um retrato
“Papéis avulsos” de Machado de Assis, narrado em terceira pessoa, a época promove a voz ou à vontade do homem sobre a mulher, mesmo que o marido tenha deixado-a para viver com outra para o Pará, ela se manteve e se aconselhava com o cônego.
Contradição entre parecer e ser entre a máscara e o desejo, entre a vida pública e os impulsos escuros da vida interior, desembocando sempre na fatal capitulação do sujeito à aparência dominante. Machado procura roer a substância do eu e do fato moral considerados em si mesmos; mas deixa nua a relação de dependência do mundo interior em face da conveniência do mais forte. É a combinação de desejo, interesse e valor social que fundamenta as estranhas teorias do comportamento expressa nos contos que compõem os “Papéis avulsos” de Machado de Assis, machadianos.
D. Benedita com suas feições de chamar a atenção e com a idade de 42 anos davam-lhe até 29 anos; era cortejada com segundas intenções é claro, mas ela não queria saber de ninguém. Talvez por ter sido abandonada por seu marido que era o Desembargador Proença; ele, ainda moço forte com seus 45 anos, foi para o Pará e lá vivia de amores com uma viúva e D. Benedita tem medo de embarcar, pois alguém veio uma noite lhe falar a respeito e ela sofreu, pensou em ir, mas, desistiu e deixou pra lá a idéia.
D. Benedita indecisa vai não vai, casa não casa; precisava de aprovação, consentimento de seu marido e apoio moral do cônego e por fim de seu genro para decidir o que iria fazer e, mesmo com a aprovação decidiu não ir atrás do marido no Pará e também não quis se casar novamente.
Em virtude desse abandono, ela se aconselhava com o cônego Roxo que incubiam-lhe de matrimônio para sua filha e na noite de seu aniversário era ele quem trinchava o peru da festa de D. Benedita e tocava piano naquelas ocasiões solenes.
Leandrinho, filho de D. Maria dos Anjos se interessou por Eulália filha de D. Benedita, mas a moça já tinha seu pretendente que era o oficial da marinha, 1º. Tenente Mascarenhas, que seria futuro almirante e a mãe de Eulália achou-o tão distinto que permitiu que fosse jantar em sua casa com sua família; ele pediu sua filha em casamento e tratou logo de escrever ao desembargador para a permissão do casamento e ele respondera que dava seu consentimento, acrescentando que lhe doía muito não poder vir assistir às bodas, por achar-se um tanto adoentado, mas abençoava de longe os filhos, e pedia o retrato do genro. Quinze dias depois do casamento, chegou a notícia do óbito do desembargador e D. Benedita dilacerada, depois de derramar suas lágrimas sendo uma esposa fidelíssima, quis erigir um túmulo ao marido.
O túmulo fez-se, mas D. Benedita não pode ir.
Passado um ano de sua viuvez apareceram vários pretendentes e ela não quis se casar novamente.

CONTO ALEXANDRINO

Por Alessandra Aparecida

Em “Conto alexandrino”, de Histórias sem Data, ambientado na Alexandria dos Ptolomeus, em nome da ciência, um cientista mata lentamente milhares de ratos, procurando comprovar a teoria de que, ao beber o sangue de um animal, o homem adquiria suas características morais. Ao tomar o sangue de uma aranha, por exemplo, o homem desenvolveria o dom da música e, ao tomar o sangue de ratos, viraria ratoneiro, ou seja, ladrão. Stroibus e Pítias, os dois cientistas, aplicam, um no outro, doses de sangue de rato e tornam-se ladrões, roubando, primeiro, idéias um do outro e, depois, até manuscritos da Biblioteca de Alexandria. Flagrados, são condenados à morte.
Na prisão, como os demais, seriam entregues a experiências, sempre em nome da ciência. Escrito em pleno apogeu das teorias evolucionistas de Charles Darwin (1809-1882), discípulo e continuador da obra de Lamarck (1744-1839), este conto de Machado de Assis é uma sátira ao amor cego à ciência, ao mostrar que a mesma teoria aplicada aos animais pode ser aplicada ao homem de tal modo que ele acaba torturado. De certo modo, o autor antecipa, de modo premonitório, o terror nazista e as experiências do médico alemão Joseph Mengele (1911-1979) no campo de extermínio de Auschwitz, durante a Segunda Guerra Mundial.
Machado declara: "As idéias alheias, por isso mesmo que não foram compradas na esquina, trazem um certo ar comum; e é muito natural começar por elas antes de passar aos livros emprestados, às galinhas, aos papéis falsos, às províncias, etc. A própria definição de plágio é um indício de que os homens compreendem a dificuldade de confundir esse embrião da ladroeira com a ladroeira formal. Ora, idéias não são produtos de consumo como também não são produtos absolutamente originais. As idéias iniciamsempre in medias res para depois pro-cessarem o ato de leitura/escrita em papéis falsos, em livros emprestados, em galinhas e províncias, ou em interpretações inadequadas. Afinal, como diz o ditado popular: quem conta um conto aumenta um ponto. Ou seja, "fusão, transfusão, difusão, confusão e profusão de seres e de coisas", se encontram no sentido de destinerrance: o “embrião da ladroeira”, longe de ser mero plágio ou débito, é o que dá vida (sobrevida textual) a um destino, a uma herança e a uma errância de textos.

O CONTO DO CHAPÉUS

Por Alessandra Aparecida

Humilhada, repleta de despeito, Mariana resolve espairecer, indo visitar uma amiga, Sofia – “alta, forte, muito senhora de si”. Num ato de fraqueza, confessa a Sofia o motivo de sua visita e a amiga a convence a irem juntas passear na Rua do Ouvidor. No entanto, o passeio revela-se perturbador e Mariana, angustiada, anseia por voltar para a segurança do seu lar. Ao chegar em casa, porém, o marido comprou um chapéu novo e Mariana, ainda assustada, pede-lhe que volte a usar o chapéu de sempre.
O conto é dominado pelas figuras de duas mulheres: Mariana e Sofia. Personalidades opostas, elas representam dois mundos diferentes, mas próximos entre si, presentes na nova configuração da realidade brasileira da segunda metade do século XIX. Mariana é a mulher infantilizada e alienada num ambiente doméstico; sua vida resume-se a casa e seus objetos: Móveis, cortinas, ornatos supriam-lhe os filhos; tinha-lhes um amor de mãe; e tal era a concordância da pessoa com o meio que ela saboreava os trastes na posição ocupada, as cortinas com as dobras do costume, e assim o resto. Sua caracterização evidencia o quanto está de acordo com os ideais de feminilidade de um mundo marcado pela figura do patriarca: era uma criatura passiva, meiga, de uma plasticidade de encomenda, capaz de usar com a mesma divina indiferença tanto um diadema régio como uma touca. Ou seja, é uma criatura feita de clichês que servem para reafirmar o oposto, a virilidade masculina. Sua vida estreita, concorda com suas leituras: Os hábitos mentais seguiam a mesma uniformidade. Mariana dispunha de muitas poucas noções, e nunca lera senão os mesmos livros: a Moreninha, de Macedo, sete vezes; Ivanhoé e o Pirata, de Walter Scott, dez vezes; e Mot de l´enigme, de Madame Craven, onze vezes.
Em oposição à sua figura, há Sofia, uma mulher da nova sociedade: independente, resoluta, seus limites vão além da vida doméstica, estendendo-se para a rua: Sofia, prática daqueles mares, transpunha, rasgava ou contornava as gentes com muita perícia e tranqüilidade. Mais ainda, Sofia era honesta, mas namoradeira: o termo é cru e não há tempo de compor um mais brando. Namorava a torto e a direito, por necessidade natural, um costume de solteira. A relação das duas mulheres com os maridos segue esse caráter de oposição. Sofia domina o marido: Olhe eu cá vivo, muito bem com o meu Ricardo; temos muita harmonia. Não lhe peço coisa que ele não faça logo; mesmo quando não tem vontade nenhuma, basta que eu feche a cara, obedece logo. Não era ele que teimaria assim por causa de um chapéu! Pois não! Onde iria ele parar! Mudava de chapéu, quer quisesse, quer não.
Sofia possui certa consciência de seu desejo e aproveita-se do fato de ser objeto de desejo dos outros homens: sai para ser vista, seu olhar se desloca incessantemente para capturar o olhar do outro, numa postura ativa: Muitos eram os olhos que a fitavam quando ela ia à câmara, mas os do tal secretário tinham uma expressão mais especial, mais cálida e súplice. Entende-se, pois, que ela não o recebeu de supetão; pode mesmo entender-se que o procurou curiosa.
Sofia encarna o novo papel da mulher: a vida social é muito importante e o que vale é ver e ser vista.